Refeições

Abri os olhos e percebi que tinha acordado em um quarto diferente: janelas grandes com cortinas branquinhas que esvoaçavam com o vento, e em uma cama com lençóis tão macios e perfumados! Cocei os olhos e olhei novamente para entender onde estava. Na verdade não reconhecia nada ao meu redor. Nada! Assustada (e ao mesmo tempo maravilhada), desci as escadas, e senti aquele aroma inconfundível de café, passado na hora.

Ao me aproximar do que descobri ser a cozinha, ouvi vozes. E quando cheguei a porta, todos da mesa me saudaram calorosamente com bom dia, e logo me deram lugar para que me sentasse. Não reconhecia ninguém, mas deixei a conversa acontecer para ver se conseguia juntar as peças.

Fazia muito tempo que não me sentava a mesa e tinha compartilhado momentos tão bons, mesmo que com uma família que não reconhecia. Sem dar muita bandeira, me retirei e voltei para o quarto, buscando quase que desesperadamente uma pista de onde estava e quem eram aquelas pessoas. Nada. Pensei ter sido sequestrada, mas ao olhar pela janela, vi que meu carro estava lá.

Fiquei tanto tempo investigando que não me dei conta do horário: a senhora simpática que me servira o café estava a porta me chamando para o almoço. Desci, e todos estavam
reunidos novamente. Comemos, rimos, trocamos piadas, carinhos, sabores. O mesmo aconteceu no café da tarde com bolinhos de chuva, cobertos de amor. E no jantar, mais uma vez, a cena se repetiu. Eu olhava tudo e todos, e sem saber quem eram, percebi que sabia mais deles do que da minha própria família.

Deitei-me para dormir na cama macia, quando ouvi um barulho de despertador. Abri os olhos e pulei da cama, agora em um quarto que reconhecia: estava em meu apartamento
de um dormitório, que dividia com a minha solidão. Já estava atrasada para o trabalho, e sai correndo abocanhando aquele sanduíche de anteontem.

Senti um vazio e uma saudade daquilo que tive no sonho: laços das refeições. Disquei para o trabalho e cancelei minhas reuniões.

Disquei mais um número de telefone, e meio receosa perguntei – “Mãe, quer que compre pão?”.

 

Há 3 anos eu retomei a minha paixão: voltei a escrever. Esse texto foi o que apresentei no evento de conclusão de uma oficina literária que fiz na época. Nos juntamos a turma de fotografia, e eles nos deram ‘material’ para criar em cima. A foto do início dessa postagem foi a que recebi, e a inspiração para o texto. Aprendi tanto durante 2014, fiz tantos amigos! E como hoje é ‘aniversário’ dessa apresentação, achei legal postar aqui. 

Duas pessoas foram muito importantes para esse retorno: Saymon Coppi, meu companheiro de vida, e Rita Elisa Seda, uma amiga muito querida que a literatura me deu. Sem a paciência, amor e incentivo deles, acho que eu ainda estaria escondendo minhas canetas de mim.

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